quarta-feira, 10 de abril de 2013

Separações que nunca têm fim




(Esse texto, pra variar, começou a ser escrito meses atrás, e só agora eu o retomo. A vida vai encaminhando a gente pra onde ela é mais premente, e nos cabe acompanhar... Nesse meio tempo voltamos de férias, começamos um trabalho novo, mudamos de casa, estamos vendo dentes nascer, mudando o tipo de fralda e até indo ao salão cortar o cabelo pela primeira vez. E com tantas novidades e acontecimentos cotidianos se passando, quando a pulsão de escrever e compartilhar retorna, a gente atende, pois sabe que é a hora...)

Ultimamente, de forma mais ou menos contínua, eu tenho percebido em mim uma necessidade intensa de estar perto de Luca. Tenho ímpetos de parar tudo que estou fazendo e ir busca-lo na creche. Impulso de ir dormir no quarto dele à noite. Uma vontade de sentir seu cheiro, estar perto da sua pele, grudados e inseparáveis, como fomos um dia.
 
Tudo começou no final do ano passado, quando iniciei um processo de questionamento interno das escolhas após o fim da licença maternidade, da minha vida profissional versus as necessidade de Luca, da nossa vida financeira se apenas o Edu fosse o responsável pelo sustento da casa, e eu arcasse com a tarefa do cuidado da casa – e das pessoas que a habitam. Isso porque Luca passou uma fase difícil na creche, não queria ficar lá de jeito nenhum, nenhum dia. Com nenhuma das educadoras, até a que ele mais adora. Pra mim foi torturante ter que deixa-lo em lágrimas ali naquele local, longe mim, dia sim e outro também. Por mais que ele se acalmasse rápido, às vezes até na minha presença, e depois seguisse bem o resto do dia, me odiava por fazer isso. E me sentindo muito mal por não ter como ficar com ele antes que as férias começassem, pois tinha um contrato de trabalho a honrar.

Mas felizmente logo vieram as férias, e curtimos à beça essa simbiose em tempo integral, vi meu bebê virar um papagaio tagarela, começar a formar frases, comer sozinho e crescer, crescer e crescer. Luca teve seu primeiro Natal, que nunca nem fiz muita questão, mas vibrei ao vê-lo seguir com a gente noite adentro na janta familiar que fizemos por aqui, super companheiro. Justo ele que adora dormir antes de escurecer e acordar antes de clarear... rsrsrs... No ano novo a coisa quase se repetiu, mas quando sentimos que ele estava pelas tabelas, viemos pra casa, e celebramos a chegada de 2013 a dois, com ele dormindo placidamente.

Também nas férias, decidimos desmontar o berço e abrir para Luca novas possibilidades para a hora de dormir, com mais autonomia para ir e vir da sua cama e de seu quarto. Não foi simples, o guri se mexe demais, e não foram poucas as vezes que fomos resgatá-lo obstruindo a porta ou deitado no meio do chão frio, chapado, dormindo profundamente e sem acordar ao ser “guinchado”... Passamos mais uma temporada na casa dos meus pais, que também curtiram demais as novidades que essas visitas sempre levam pra vida cotidiana deles – e pra de Luca também. Vimos amigos, amigas, filhos de amigos, e eu sempre percebendo em Luca o grude, a necessidade constante de não se separar de mim por nenhum momento.

E à medida que foi se aproximando o dia de voltar pra creche,  fui eu pensando como ia ser, se ele ia chorar, se ele ia querer ficar. E construindo cenários imaginários na minha cabeça para o caso de ele não querer, de ser sofrido demais. Fui preparando mininu pra esse novo começo também, falando pra ele que ele ia voltar pra creche, que a mamãe ia voltar a trabalhar. E Luca fala: “não”. Putz. Lá vou eu explicar pra ele, da forma mais simples possível, que era preciso, e que ele ia ficar bem.

Apesar de toda receptividade da creche para a minha preocupação, eu sabia, dentro de mim, que não se tratava do atendimento que ele recebe lá. Trata-se da nossa relação de mãe e filho, desse binômio HeloizaLuca que cada dia que passa começa a dar espaço à mãe e ao filho como indivíduos emocionalmente integrais. Luca está às portas de completar 2 anos, e tem dias que eu queria que ele fosse um bebezinho que só dormisse no peito, como foi por tanto tempo. Que ele fosse leve o bastante para que eu ficasse horas com ele no colo sem sentir dor na coluna. E que ele quisesse ficar horas no colo, pois hoje em dia seus interesses são outros.

Luca nasceu descobrindo o mundo com a boca, depois passou para os olhos, as mãos, agora os pés. Quer ter autonomia, ir e vir, brincar de uma coisa e depois de outra. Já sabe comer sozinho e beber água no copo comum. Não dorme sem a mamadeira, mas adormece sozinho. Afirma diariamente seus desejos e suas preferencias. Sabe dizer não, e justamente hoje, indagou seu primeiro “por que?”. Está aprendendo a falar em primeira pessoa, falar “isso é meu”. E também sinaliza quando a fralda está suja, sem confundir uma coisa com a outra. Meu bebê está virando uma criança, bem devagar, bem aos poucos, mas está. Ele ainda depende de mim pra coisas como tomar banho, se vestir, e entrou numa fase de pesadelos, de ter medo de barulhos repentinos (isso ele sempre teve, na  verdade).

E aí meu eu se divide em dois, de um lado eu me emociono quando me dou conta desse amadurecimento, do desenvolvimento dele nesse processo de se descobrir no mundo. Mesmo sabendo que nosso vínculo estará sempre aí, e irá se atualizar e se transformar à medida que o tempo for passando, bate a melancolia, a sensação de que cada dia mais ele será menos meu e mais do mundo, mais para o mundo.

E aí dá aquela vontade maluca de sacar um cordão umbilical e amarra-lo junto a mim novamente.

O sentimento é tão instintivo como era o ato de levantar de madrugada para atende-lo, ou para acudir o pai quando esse não conseguia acalmar o guri. Estar junto é uma necessidade, daquelas vitais, tipo respirar. Despertamos na mesma hora, quando vou coloca-lo pra dormir, adormeço também. Pois é, acho que estou sofrendo de ansiedade de separação às avessas...


Mas num sentido positivo, ao reconhecer que se trata de um processo de separação mesmo, e que traz ansiedade. De reconhecer que a fase dele de sair da simbiose está chegando, e ele se interessa muito pelas coisas do mundo, a ponto de aceitar se separar de mim, ou até de não querer meu grude (tipo a mãe louca querendo dar ataque de beijo no filho que está entretido com uma brincadeira e ouve: “num qué ataki de bêdô”).

E que isso significa que a minha fase de sair da simbiose também está chegando. Que sim, ainda vamos precisar muito um do outro, para muitas coisas, porém cada dia que passa caminhamos para existir mais como sujeitos (eu pela segunda, ou terceira vez, se contar os meus 2 anos) e não como binômio. E isso, longe de afetar nossa parceria, só vai fortalecer, dentro de um processo que começou no dia em que ele saiu de dentro de mim. Cada dia maior, mas sempre com espaço garantido nesse colo de mãe que nunca terá fim.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sobre perdas irreparáveis


O incêndio  na boate de Santa Maria/RS promoveu uma comoção nacional em torno das vítimas, 235 até a data de hoje (já que muitas permanecem internadas), e uma grande discussão sobre a segurança das casas noturnas em todo o País. O episódio, que começou na madrugada de um domingo, mexeu com a rotina da casa pois tirou Edu de casa, que teve que ir atrás de imagens da tragédia para um cliente para o qual presta serviços de jornalismo. Ele não precisou se deslocar até lá, e conseguiu intermediar as imagens, para uma agência internacional, via telefone e internet. Mas até ele cruzar a porta de casa eu ainda não conseguia entender como um incêndio no interior do Brasil estava chamando tanta atenção da imprensa internacional. À medida que as informações foram chegando, é que fui me dando conta da gravidade da situação.

Eu me lembro que última vez que fiquei transtornada com uma tragédia desse porte, foi no acidente da Air France, em 2008, que o avião caiu no meio do mar. Lembro de olhar para as pessoas na rua e me dar conta da fragilidade dos seus corpos, da possibilidade de algo terrível acontecer com eles, assim, de repente. Mas dessa vez foi diferente. Porque dessa vez eu sou mãe. De um bebê, sim, mas acontece que bebês crescem, se tornam crianças, adolescentes, jovens. E saem pra baladas, como essas e como outras, como muitas que eu já fui e nunca sequer me passou pela cabeça imaginar que poderia estar correndo algum risco de vida.

Quando eu li no letreiro da TV, por volta de 10h da manhã, que 180 mortes já haviam sido confirmadas, só fiquei pensando nas mães daqueles mortos. Pensando que elas estavam em casa no sábado à noite, interagindo com filhos e filhas enquanto esses se preparavam para sair e passar a madrugada fora de casa, para onde provavelmente retornariam somente quando o sol já tivesse dado as caras. Só que não. Eles não chegaram. E não deram notícias. E elas provavelmente devem ter ligado para os celulares das crias, que foram ouvidos apenas pelos bombeiros e os sobreviventes. E fiquei pensando como seria a próxima ligação que elas receberiam, solicitando que comparecessem para fazer um reconhecimento.

Como lidar com um sentimento desses? Sempre ouvi que filhos não devem morrer antes dos pais, é contra a natureza das coisas. Parece lugar comum, mas é cruel demais. Depois que Luca nasceu, estaria mentindo se não me preocupei que algo fatal pudesse acontecer a ele, claro que pensei. E temi, como temo diversas vezes, que um medo sem razão aparente se abate sobre mim. Um medo de nunca mais vê-lo, de não poder abraça-lo, vê-lo descobrir o mundo, sentir seu cheirinho de neném que eu gostaria que ficasse nele pra sempre.

E concluo, como concluí pouquíssimo tempo após seu nascimento, que da morte de um filho a gente nunca se recupera. E, mais que isso, quando uma mãe fica órfã de seu filho, é como se todas nós, mães, ficássemos um pouco órfãs também. É uma perda irreparável, a potência que não se transformou em ato, como orientava o filósofo, há muito tempo atrás.

Mas, do alto do meu lugar de mãe de um guri com quase 2 anos, que começa, dentro dos seus limites, a reivindicar sua própria autonomia, à medida que adquire consciência de que é um sujeito nele mesmo, como lidar com o fato de que, sim, bebês crescem, e tendem a buscar cada vez mais o mundo, longe da gente? É uma questão difícil, e que uma tragédia como essa traz à tona da forma mais cruel possível: não, ninguém está livre de ser uma vítima fatal num evento trágico como esse.

Luca irá crescer, irá amadurecer, e vai começar a buscar seu lugar no mundo de forma cada vez mais consciente e ativa. E isso significa que eu, mãe dele, não poderei mais protege-lo das quedas, como faço hoje em dia, que ele ainda não se equilibra direito sobre as próprias pernas. Significa aceitar que crescer implica sim, em algum nível de sofrimento, porque o sofrimento também nos ensina muitas coisas, como ensinaram a mim, e a meus pais também. Crescer, também, implica em assumir responsabilidades pelas próprias escolhas e às vezes a gente se equivoca nas escolhas.

Talvez eu esteja chovendo no molhado por dizer tudo isso, mas acho que o post é um desabafo, uma necessidade interna de me conformar que não, não tem mais volta. Coloquei um ser humano nesse mundo, e ele terá o direito de viver como desejar, correndo os riscos que isso implicar. E como negar-lhe esse direito? Como querer que ele viva enrolado no plástico bolha? Sim, coisas ruins, ou muito ruins, podem acontecer, como aconteceu com esses jovens, que perderam a vida, e com suas mães, que perderam seu legado, seu futuro. Mas viver é sempre um risco. Olhando pra trás, com meu olhar de mãe, perco a conta de quantas as situações em que estive envolvida e representavam um tremendo risco e eu, paradoxalmente, me sentia segura.

Então, se tem algo que essa tragédia me ensinou, além de passar a conferir a existência de extintores de incêndio e saídas de emergência em cada lugar fechado que eu adentrar a partir de agora, é que preciso me conformar com o fato de que o meu controle sobre Luca é inversamente proporcional à autonomia que ele começa a reivindicar. Poderei e irei orientar, conversar, ser uma boa ouvinte, um pouso seguro. Segurar sua mão e coloca-lo no meu colo para consola-lo. Velar seu choro e silenciar com ele. Torcer para que as quedas não sejam irreversíveis, não seja irreparáveis. Mas infelizmente não poderei, como desejo todas as vezes que ele adoece e chora com muita dor madrugadas a fio, coloca-lo de volta na minha barriga a cada vez que algo ruim lhe acontecer. O útero, o lugar mais seguro do mundo é, infelizmente, incompatível com estar no mundo.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Rasgando os medos

Hoje a postagem é um pouco diferente... Não faz parte do meu costume nesse blog publicar escritos de outras pessoas, mas esse relato de parto da Elisa Costa realmente me tocou... além de eu ter me identificado com vários sentimentos que ela descreveu, a forma como ela elaborou as lacerações que teve é digna de uma mulher que encontrou seu lado mamífera no momento em que se tornou mãe da Maya, no dia 29 de outubro desse ano de 2012. Nós nos conhecemos por meio de um grupo eletrônico de mulheres de Brasília que pariram em casa, ou planejam fazê-lo. Já citei esse grupo numa outra postagem e no quanto ele tem sido enriquecedor para minhas vivências e conhecimentos... Bem, a autora encaminhou o relato no dia 12.12.12 e me autorizou a publicar, e por isso eu compartilho essa história com quem costuma frequentar esse mural eletrônico...

(...)


"Transformação, foi essa condição mais marcante da minha gravidez. Antes de confirmá-la já havia algo em mim que indicava que muitas mudanças iriam acontecer. Oscilando entre o desejo de ser mãe e o medo de assumir a maternidade descobri-me grávida e um novo mundo se abriu. Era uma menina, muito embora minha intuição confirmasse a espera de uma princesa, o racional aliado com toda a sabedoria popular, do tipo: “você está com cara de menino, olha sua pele..!” me confundiram, não confiei no meu feling, até confirmar que Maya estava a caminho. Dei-lhe o nome de uma deusa indiana por sua simbologia e poder: tornar o impossível possível. E a espera trazia algumas certezas, que ela viria com a força de uma devi, a força para transformar-me, transmutar-me, mudar meu mundo, minhas convicções e por isso tinha certeza que ela chegaria sob a energia do signo de escorpião, que representa a morte a transformação.

A gestação preparou-me num processo de emponderamento aliado ao desejo de que Maya chegasse ao mundo de forma amorosa e respeitosa. Sabia que seria preciso mobilizar muita energia para um parto humanizado, sair do modelo obstétrico convencional e todos os procedimentos intervencionistas desnecessários. Apresentada por uma amiga, foi assim que a enfermeira Iara Silveira entrou na nossa história. No quarto mês de gestação consegui levar Juan a palestra aberta para esclarecimentos sobre o parto domiciliar. E aí nasceu o embrião da ideia de parir em casa, parir dentro daquilo que acreditávamos. Juan topou e embarcou comigo nessa jornada. Seguimos com o pré-natal convencional com um obstetra e planejamos começar o pré-natal com a equipe da Iara quando completássemos 30 semanas de gestação. O plano inicial era ir a Brasília para ter nosso parto na casa de uma prima do Juan. Entretanto a história foi ganhando outros contornos. Existia também a possibilidade da ausência da Iara na data em que eu completaria 40 semanas e isso acendeu a alternativa de seremos assistidos por outra enfermeira, também de Brasília, juntamente com uma doula experiente. A Iara se dispôs a participar do parto se ela estivesse em Brasília na data, Anápolis fica a 150 km da capital federal. 

Começamos o pré-natal na 30 semana e tudo indicava um parto normal já que a gravidez era de baixo risco. A Iara contactou outra equipe de apoio para sua eventual ausência, dessa vez de Goiânia – 50 km de Anápolis. E assim conhecemos Diego e a doce Marcela, enfermeiro e doula.  Na 38 semana tivemos uma consulta em casa com toda equipe e acertamos os detalhes do parto em casa. Como todo parto domiciliar planejado precisávamos de um plano B em caso de emergência e uma possível transferência para um hospital. Assim procurei um médico amigo e coloquei-o a par do plano de parto domiciliar e pedi-lhe apoio em caso de transferência para uma cirurgia. Deixei de trabalhar na 37 semana e a essa altura já existia toda um energia de ansiedade em volta de mim, e ouvir coisas do tipo: “sua barriga está baixa, hein!?”, “de tal dia não passa”, etc e outras coisas tão comuns ao fim da gravidez. A essa altura eu já dava sinais típicos que o parto se aproximava, tal como a vontade de ficar no ninho, não ver e falar com ninguém, sentia toda a minha parte animal, instintiva ativa, aquilo que negamos tão facilmente na nossa vida cotidiana.

Chegamos a 40 semanas pela DUM (Data da última menstruação) mas a equipe e o obstetra contavam a partir do primeiro ultra que apontava 39 semanas.  Aí sim a ansiedade começou a me consumir e o prazo de validade, me sentia como um iogurte na geladeira com data para vencer, da minha gestação não parava de martelar na minha cabeça. Apesar disso tudo a proximidade com a mudança da lua cheia e a coincidência dessa data com a contagem da 40 semana me deixava um pouco mais acalentada. Um pouco antes dessa data escrevi uma carta para Maya e conversava muito com ela pedindo sua chegada e contando que estávamos a sua espera com muito amor. No domingo, véspera do parto, combinei com a Maya que o dia seguinte era o grande dia, o dia de nos conhecermos. Para engrenar o trabalho de parto namoramos e saímos para uma caminhada. Me lembro que com aquele barrigão metros pareciam kilomêtros.  Depois do jantar por volta das 9h da noite comecei a me sentir estranha, inquieta e com contrações que julgei serem  pródromos, um novo falso trabalho de parto, que já se repetira há alguns dias.

Na incerteza de início de TP tentei dormir, até consegui por um tempo, mas fui acordada com as contrações mais intensas por volta de 11h da noite. Não havia posição, fui obrigada a sair da cama e me coloquei a caminhar pelo quintal a luz da lua cheia que iluminava aquela noite e no íntimo sabia que era o início do fim, do fim de quando ainda éramos eu e a Maya e partir dali seríamos duas, mas ainda ligadas. Com as contrações irregulares segui madrugada adentro, sem conseguir dormir. As quatro da manhã liguei para o Diego e para Marcela avisando, já havia uma consulta combinada no dia seguinte. Aconselhada por Diego consegui dormir um pouco, mas ainda me lembro de acordar entre uma contração e outra com pés suando frios. A consulta estava marcada para as 8h da manhã levantei as 7h e Diego me ligou perguntando como estavam as contrações, se irradiavam para as costa. Diante da minha negativa ele achou melhor esperar porque ainda podia demorar até o início efetivo TP. As 11h avisei uma amiga, Eva, que tinha iniciado o TP e combinamos dela vir me acompanhar até a chegada da Maya.

Ao meio dia liguei novamente para o Diego dizendo que as contrações estavam regulares, 5 em 5 minutos e irradiava para as costas, ele perguntou-me se havia perdido o tampão mucoso e como não havia perdido ainda me disse que esse era o sinal que o TP tinha começado efetivamente. Pediu-me para avisar quando isso acontece. Assim que desliguei ao ir ao banheiro para minha surpresa lá estava o tal tampão mucoso. Avisei o Diego e a Marcela que ficaram de se apressar e vir para Anápolis. Antes de almoçar fiquei um pouco só, pois o Juan tinha que resolver umas coisas antes do parto. Me lembro da mistura de sentimentos que esse momento trouxe estava só e não estava, éramos eu e a Maya e nos duas iriamos atravessar essa jornada juntas. Nesse tempo almocei e a Eva chegou e foi bom ter companhia.  A noção do tempo já estava completamente alterada e já não saberia dizer quanto tempo levou para que as contrações passassem de 5 em 5 para 3 em minutos. Acho que nesse momento entrava na tão falada partolândia, algumas coisas deixaram impressões bem marcadas em mim, tal como a delícia de ouvir o canto dos pássaros entre uma contração e outra. Instintivamente queria ficar de cócoras, agachar mais me contive porque havia tido problemas de hemorroidas no fim da gravidez e tinha medo de agravar com o parto.

Em algum ponto no meio da tarde, quando as contrações já duravam muito tempo, Eva teve que sair e enquanto o Juan se ocupava de encher a piscina. Diego e Marcela estavam a caminho mas houve um acidente na estrada que retardou a chegada deles. Não havia mais posição, lugar e como se eu não coubesse mais em mim, me lembro de deitar na cama e a música do Djavan invadir a cabeça: “..por ser exato o amor não cabe em si por se encantado o amor revela-se por ser amor invade e fim...” queria ouvi-la mas não houve tempo. Nesse momento a bolsa estourou e ao mesmo tempo Diego e Marcela chegaram. No primeiro exame de toque, 6 cm de dilatação, cabeça baixa. A Marcela pegou a bola e rebolando deixei o corpo fazer o que devia ser feito. Pela boca os sons saiam e abriam caminhos para chegada da Maya. As contrações já estavam tão próximas umas das outras e pareciam durar uma eternidade. Quis entrar na piscina e a água quente era como se tirasse toda dor com as mãos. Contudo a água retardou as contrações e em algum ponto pela posição a piscina deixou de ser confortável. Desejei voltar para bola e já não fazia ideia das horas e como me sentia direito, era como se eu fosse somente contração e muita pressão no reto que me confundia e me levava ao banheiro a todo momento. Um grande pulsar, mas havia torpor também. Uma vontade louca de deitar e dormir... Diego sugeriu que eu mesma fizesse o toque, pois já podia sentir a cabecinha dela no canal vaginal. E foi uma grande emoção sentir que ela vinha, que estava perto.

Nesse momento pedi para o Juan e Marcela cantarem “tu vens, tu vens eu já escuto os teus sinais...” e uma emoção tomou conta de mim, a constatação que minha filha chegava e partir dali tudo se transformaria. Senti que era hora de voltar para piscina e sair de lá com a Maya nos braços. Não queria fazer força no puxo, para não haver lacerações e muito menos problemas com as hemorroidas. Mas a posição que assumi na piscina não favorecia a descida da Maya. As luzes foram apagadas e acendemos apenas uma luz ao pé da piscina que dava uma cor azulada maravilhosa. E mesmo ouvindo da Eva, Diego, Juan e Marcela que podiam ver a cabecinha dela não acreditava e gemia a cada contração. Me sentia como um animal ao gemer (minhas testemunhas me disseram que fui extremamente comedida em gritos e gemidos, mas essa não era minha percepção). Foi preciso que o Juan entrasse na piscina para parir junto comigo. E com muita massagem da Marcela para soltar as pernas que eu travava a cada contração e o Juan segurando-me em cócoras a Maya atravessou a passagem e nasceu as 20h55, segunda-feira, 29 de novembro, lua cheia. Com uma circular de cordão, 3.100 kg e 51 cm, Diego amparou a nossa pequenina nos e colocou sobre meu peito. E nesse ponto não sei traduzir em palavras como senti, amor, dor, felicidade, alegria, medo. Tudo ao mesmo tempo. Chorava e ria essa era minha expressão nas fotos. Assim ficamos pelos primeiros minutos da vida da Maya. Enquanto ela me olhava e eu abraçava e me preocupava porque não chorava.

Mas esse instante foi tão rápido que logo pude ouvir seu chorinho e o cheiro que nunca mais vou esquecer, cheiro de amor. Era assim que a casa cheirava. Ainda levamos três horas para parir a placenta. E na cama com Maya no peito e ainda ligada a mim pelo cordão recebemos as primeiras visitas. Já não importava mais, pois minha pequenina cumpria sua primeira missão no mundo, unir, trazer amor. Três pontos foram necessários, houve uma pequena laceração embora eu não tenha feito força. Com relação a laceração passei avaliar da seguinte forma: o medo é algo presente no parto, mesmo que você não admita ela estará lá, porque é ele que te preserva. O medo é algo constante em minha vida, afinal são três planetas numa casa só e isso, segundo minha astróloga, isso gera um medo. Nunca admiti na gravidez a presença do medo e foi preciso que a Maya chegasse e “rasgasse” esse medo, me livra-se de uma porção de coisas. Não me arrependo nem um minuto da minha escolha, Maya nasceu no seu próprio quarto e tudo que foi preciso foram muito amor, apoio e deixar a natureza agir. O parto deve atender ao desejo da mulher e esse foi o meu desejo, o meu parto. Sou eternamente grata a a equipe: Iara, Diego, Marcela, Eva e Juan que me apoiaram e puderam facilitar a vivência da experiência mais transformadora da minha vida."

domingo, 9 de dezembro de 2012

pensamento do dia


cena 1: mamãe e Luca tomando banho juntos. mamãe toma banho primeiro, enquanto neném brinca com os amigos do banho. depois dá banho no neném. os dois estão se divertindo, cantam e conversam.

cena 2: mamãe avisa que está saindo do banho, como de costume, pra se vestir e depois pegar neném. neném segue brincando, feliz da vida. mamãe continua no banheiro por mais uns minutos.

cena 3: mamãe sai do banheiro e vai pro quarto vestir uma roupa. ouve neném chamar: "mamãe?". mas não se preocupa, pois ele geralmente faz isso sem maiores intenções.

cena 4: mamãe está saindo do quarto, em direção à cozinha, para preparar o mamá de antes da soneca do meio-dia. mal atravessa a porta do quarto, vê um pinto molhado do lado de fora do box, quase saindo do banheiro. é o neném. ele olha pra mamãe e diz: "abô"...

ou seja, mininu me chamou, não foi atendido, abriu a porta do box sozinho, decidido a ir me procurar.

pois é, isso é que eu chamo de chegar com a farinha e seu bebê já estar comendo o bolo (que por sinal, ele adora!)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um fim de semana corporal


Esse fim de semana participei de duas oficinas que vinha produzindo há alguns meses, com a Claudia Rodrigues, figura que eu só conhecia virtualmente, mas gostava muito do que lia. Ela foi especialmente significativa durante os meus pródomos, período mais conturbado e sofrido da gravidez toda, quando eu desconfiei que poderia ser incapaz de parir. E o que ela dizia a respeito do parto e do nascimento fez muito sentido e me colocou pra refletir e me concentrar para aquele que foi um momento tão especial e transformador na minha vida.

Pois bem, a dita é uma terapeuta reichiana que direcionou seus estudos e suas práticas para as questões teóricas que dizem respeito ao mundo da maternidade e da criação dos filhos. E eu, na minha ânsia por uma maternidade baseada no conhecimento, obviamente me fascinei pela proposta quando a conheci. E fiquei indo atrás de gente pra me ajudar a organizar a vinda dela até aqui. No mais, seria a oportunidade de conhecer ao vivo alguém que me ajudou tanto e com quem eu passara a trocar ideias no mundo virtual. E não me arrependi. Não tinha como, nos identificamos muito.

A produção em si, porém, demorou um pouco até tomar forma, ter gente disposta a organizar, mas acabou saindo. Aconteceu num espaço super alternativo de Brasília, cedido por uma das que topou organizar. Tinha uma atmosfera meio abandonada, uma meia luz, eu achei aquilo perfeito quando vi. Achei que o clima intimista para a vivencia que a Claudia oferece com seu trabalho ficaria facilitado naquele local. E assim foi. E hoje, segunda feira, senti vontade de compartilhar um pouco as impressões desse momento.

As explicações sobre o quanto o desenvolvimento da criança desde o útero até os 6 anos de idade moldam o corpo do indivíduo e influenciam o seu comportamento fizeram muito sentido pra mim e me proporcionaram um mergulho dentro de mim mesma, deixando claras algumas posturas que me acompanharam – e perseguiram – nesses últimos 32 anos. Cada uma das fases, muito marcadas, transparecem mesmo na criança – quando a gente tem filhos é mais fácil visualizar, eu acho – e na verdade o principal é a gente acompanhar, conduzindo aqui e ali quando necessário.

Fiquei pensando muito no que foi feito comigo nesses anos, pois é obvio de que de muitas coisas eu não lembro, outras eu possuo os relatos, o que já ajuda bastante a entender. Mas o principal foi olhar para essas explicações dos tipos segundo a expressão corporal quando a relação se dá com o momento do parto. Ficou claro porque eu tinha tanto medo de não conseguir parir, onde tudo poderia ter dado errado, e acabou dando certo porque eu consegui, sem saber, fazer exatamente aquilo que eu precisava fazer para chegar onde queria. Se vier a ter outro filho, com certeza as coisas serão muito mais fáceis. Muito mais.

Os insights da vivência me ajudaram a olhar pra trás e perceber o que eu meu corpo diz sobre mim. E o que ele pode vir a dizer. Mas, mais do que olhar pra trás – e eu senti que ainda preciso olhar mais pra mim sob essa perspectiva reichiana -, foi poder olhar pra frente, olhar para a criaturinha que eu gestei dentro de mim, que ainda não chegou aos 2 anos e tem uma longa estrada pela frente. É um livro em branco, um HD vazio, e cujo conteúdo ainda depende majoritariamente de mim para ser formado. As informações que eu recebi foram valiosas nesse sentido. Algumas, óbvias desde sempre, como não bater na criança, foram apresentadas com uma explicação corporal que foi muito além das justificativas éticas, filosóficas e antropológicas. Bater numa criança tem impactos na forma como ela vai se posicionar diante do mundo, corporalmente falando. Agressões verbais, idem.

Não dar a uma criança o que ela precisa em cada uma de suas fases produz, por sua vez, um efeito duplamente perigoso: de um lado, a falta dos estímulos quando eles deveriam acontecer (a simbiose, o colo, o peito, a autonomia, o lúdico) vão aparecer mais na frente de outras maneiras. E aí vem a crise por ter que deixar na creche, e a crítica sobre as creches estarem muito distantes do padrão ideal de desenvolvimento infantil. As creches, como instituições, tem suas regras, e regras reprimem os instintos. E para seres sensoriais isso é muito temerário. Mas, como receita de bolo só serve mesmo pra fazer bolo, é claro que a leitura sobre tudo isso não é absoluta. Cada ser é um ser, cada binômio também é único, e aos poucos vamos descobrindo o que funciona e não funciona. Nesse ponto, a perspectiva das inscrições corporais é o ponto de partida, não de chegada. Adorei.

Bom, mas o outro efeito que a falta de sintonia com as fases do desenvolvimento pode produzir é nos pais, que na ânsia por recuperar o tempo perdido, querem compensar uma fase em outra, embolando o meio de campo do desenvolvimento e produzindo na criança alterações comportamentais como sentimentos de raiva e traição. É o caso clássico dos pais que não deixam de tratar como um bebezinho uma criança que já está praticamente aprendendo a ler.

Claro que ninguém quer o pior para o filhos, que a gente faz tudo tentando acertar. E cada criança tem seu ritmo. Umas são mais adiantadas, outras demoram mais. Mas às vezes a gente nem se percebe nos excessos, não se dá conta de que nossa ansiedade está nublando nossa visão sobre o mais importante: a felicidade da criança. Não nos damos conta que nossas projeções, especialmente sobre aquilo que consideramos que faltou em nossa própria infância, nos faz pensar enganosamente que a criança precisa de mais, mais e mais. O fundamental é olhar nos seus olhos, observar seu comportamento, seu interesse pelo mundo.

Uma das coisas que mais me fascina na maternidade é a sensação de estar descobrindo o mundo pela segunda vez, mas pelos olhos do meu filho. A surpresa com que ele olha para cada coisa que descobre, a atenção para tarefas que nosso mundo adulto considera banais (como encher e esvaziar uma caixa, por exemplo) são mostras de um ser que está se construindo para viver nesse mundo, que está procurando aquilo que faz sentido para si. E que te procura o tempo todo, querendo sua aprovação, querendo sua ajuda. Ele não terá lembranças desses momentos, mas eu terei. E quero olhar pra trás tendo certeza que fiz tudo que estava ao meu alcance para que o mundo fosse visto por ele como um lugar, no mínimo, interessante para se viver.

Ao aliar esse meu sentimento ao conhecimento que adquiri nos últimos dois dias, percebo o quanto pode ser mais simples criar um filho se nós nos concentrarmos nas necessidades dele, não naquelas que nós achamos que são as necessidades dele. Claro que existirão situações complexas, que nos colocarão a pensar e refletir se estamos indo pelo caminho certo ou não, mas os olhinhos deles não deixarão dúvidas. Basta olhar. Basta atentar. Quando erramos, é porque provavelmente estamos com medo de passar de fase. De deixa-los passar de fase. Porque isso dói, por mais que seja necessário. E eu suspeito que doa ainda mais quando eles ficam maiores, porque da autonomia passamos à necessidade de independência, e é quando a separação se completa.

Por isso é preciso ter coragem. Coragem para olhar nossos pequenos quando são pequenos, e dar a eles o que precisam quando pequenos. Coragem para admitir que estão crescendo, e proporcionar a eles vivencias que os façam crescer da forma mais saudável e feliz possível. Coragem para reconhecer que vamos cometer erros, e que esses erros podem marca-los de forma indelével. Mas é preciso coragem também para admitir o erro e buscar a reparação. Pois como a Claudia mesmo nos disse, só não há reparação para a morte.

Esse fim de semana falamos de todos esses assuntos. Foi uma vivencia muito intensa, muito rica, muito interessante. Foi ótimo conhecer outras mulheres fortes, interessadas numa maternidade cada vez mais ativa, cada vez mais conectada com seus pequenos. E sem que isso signifique abrir mão de suas próprias dimensões.

E foi melhor ainda chegar em casa, ver marido e filho conectados e com saudade de mim. Ver o filhote me olhando com aquela cara de namorado apaixonado que ele me dá de vez em quando, falando mamãe e olhando nos meus olhos e rindo, rindo de alegria porque eu estava ali, de volta. E foi emocionante olhar pra ele depois de tantos aprendizados e sentir que sim, eu estou entendendo um pouco mais sobre ele, sobre mim, sobre nossa relação. Fiquei com a sensação de que estava olhando meu filho de um jeito totalmente novo, mais nítido, mais lúcido, mais consciente. Foi como quando coloquei meus óculos pela primeira vez: um novo mundo se abriu para mim, mais nítido, colorido e vibrante.